Uma pessoa que nunca teve dengue pode contrair a forma hemorrágica na primeira contaminação? A infecção tem alguma relação com a baixa imunidade do organismo?
A resposta para a primeira pergunta é sim. Todos os quatro sorotipos de dengue (1, 2, 3 e 4) podem produzir formas assintomáticas, brandas, graves e fatais. Devem se considerar três aspectos: a) todos os sorotipos podem levar ao dengue grave na primeira infecção, porém isso ocorre com maior freqüência, após a segunda ou terceira infecção, b) há uma proporção de casos de infecção subclínica, em Aedes aegypti, mas que as pessoas são expostas à picada infectante do mosquito não apresentam a doença clinicamente, embora fiquem imunes ao sorotipo com o qual se infectaram; isso acontece em 20% a 50% dos infectados, c) a segunda infecção por qualquer sorotipo do dengue é quase sempre mais grave que a primeira, independentemente dos sorotipos e da seqüência dos mesmos; entretanto, os tipos 2 e 3 são mais virulentos. É importante lembrar que muitas vezes a pessoa não sabe se já teve dengue: ela pode ter tido a infecção subclínica (sem sinais e sintomas) ou ter-se infectado com formas brandas da doença, facilmente confundidas com outras viroses febris agudas.
A resposta para a segunda pergunta é não. Pode até ser o contrário. As formas mais graves de dengue poderiam estar associadas a uma "excessiva'' resposta imunológica do organismo ao vírus, que acaba por prejudicar o paciente. É como se houvesse uma ‘hipersensibilidade” ao vírus, uma reação das células de defesa do organismo (linfócitos e macrófagos) através da produção de substâncias (cininas) responsáveis pelo processo de aumento da permeabilidade vascular, levando à perda de líquidos do conteúdo vascular para fora dos vasos, provocando queda da pressão arterial e choque – causa principal do óbito, e não a hemorragia.
Felizmente, as formas graves são raras e variam de 0% a 10% dos casos durante epidemias. A forma hemorrágica (dengue vem da palavra dengo, gênero masculino, de origem africana), por definição da Organização Mundial da Saúde, caracteriza-se pela concomitância de alterações laboratoriais: diminuição de plaquetas para menos de 100 mil, elevação de hematócritos acima de 20% (hemoconcentração), e de alterações clínicas associadas à síndrome febril, com gravidade variável. Essa pode ser classificada em: grau 1 –hemorragia da pele induzida pela prova do torniquete ou do laço (deixa-se o manguito do aparelho de pressão arterial entre a pressão máxima e a mínima por cinco minutos; a prova é positiva se aparecerem na dobra do cotovelo, em uma área mínima de 2,5 cm2, mais de 20 pontos vermelhos, que se denominam petéquias); grau 2 – a primeira situação somada a hemorragias espontâneas de pele (petéquias) e mucosas (nasais, gengivais, aumento do fluxo menstrual, sangramento urinário e/ou vômitos sanguinolentos); grau 3 – acrescentam-se ao quadro anterior derrames cavitários (pleural, peritoneal, pericárdico) e/ou sinais de pré-choque (redução da pressão arterial, do fluxo urinário e do enchimento capilar, pulso fino e rápido, palidez, extremidades frias, sudorese, sonolência); grau 4 – sinais de choque: agravamento do quadro, com pulso e pressão imperceptíveis, ausência de diurese (fluxo de urina), torpor e perda de consciência, que podem evoluir para o óbito. Essa classificação, no entanto, tem muitos problemas práticos porque, em significativa parte dos casos, o paciente pode evoluir, sem apresentar alterações hemorrágicas clínicas ou laboratoriais, para a síndrome de pré-choque ou choque, ou apresentar outras manifestações graves (neurológicas, hepáticas e/ou cardíacas), também sem ter tido hemorragias prévias.
O dengue clássico caracteriza-se por redução do número de plaquetas e hemoconcentração, assim como pela presença da chamada febre do dengue (início súbito), dores de cabeça, musculares, articulares, ósseas, abdominais, erupções na pele (parecida com rubéola), coceira – principalmente nas palmas das mãos e nas plantas dos pés –, náuseas, vômitos, diarréia, tonturas ao sentar ou levantar, hemorragias induzidas ou espontâneas. A febre pode desaparecer no terceiro dia, mas as manifestações podem progredir (a presença de febre por menos de sete dias, associada a dois ou três desses sintomas, indica dengue clássica e deve ser notificada).
A doença evolui para a cura em cinco a sete dias, no máximo 10. Alguns sintomas podem prenunciar gravidade, mesmo que não haja alterações laboratoriais, como vômitos muito frequentes, dor abdominal importante, tonturas com hipotensão postural, hemorragias. Esses casos devem ficar sob observação médica. Além disso, condições prévias ou associadas, como referência de dengue anterior, idade avançada, hipertensão arterial, diabetes, asma brônquica e outras doenças respiratórias crônicas graves podem favorecer a evolução com gravidade.
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